Nunca será mais um simples 12 de maio. O ano era 2016. O Palácio do Planalto, ainda, estava ocupado por uma mulher, a primeira de uma crônica do poder masculino com o título de Brasil. A antiga narrativa desenhada por traços de dominação ganhava um rosto, o retrato. Aquela quinta-feira representava a última página, de mais um capítulo machista da nossa história.

As cortinas do espetáculo da vida despencaram, os discursos sexistas e misóginos foram apresentados à plateia através do palco virtual (Facebook, Twitter, Instagram). Viralizou um novo instrumento político, com velhas práticas para deslegitimação daquela que ocupava o cargo político mais importante do país.

“Eu fui a primeira mulher eleita presidenta da República. Honrei os votos que as mulheres me deram. Depois do primeiro operário presidente da República”, discursava Dilma Rousseff (PT) em tom de despedida, carregando a firmeza que foi decisiva em toda sua trajetória de vida pública.

O Sol se aproximava do seu ápice. O meio do dia era uma questão de minutos. O calor era escaldante, mesmo assim, aquela senhora de 68 anos continuava com o mesmo olhar que destilou ao longo de sua biografia, uma odisseia de desafios aos espaços masculinos.

Todas as redes de televisão brasileiras transmitiam ao vivo. Junto à presidenta poucos apoiadores, mas ganhava destaque o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Abatido, o mentor da eleição de uma mulher para Presidência da República acompanhava uma senhora serena, firme, que de cabeça erguida desabafava em tom duro para o país.

“Louca”, “puta”, “vaca” e “vadia” foram termos que ela enfrentou ao longo do processo. Esses sons em sua maioria eram emitidos das varandas gourmet’. Nas redes sociais imagens relacionando a agora ex-presidenta à loucura eram uma constante. Na “mídia tradicional” a ideia de desequilíbrio feminino era impregnada àquela figura “indesejada”. O Brasil precisava de uma “bela, recatada e do lar” para representar os valores conservadores difusos no corpo social.

Um rastro de ódio como mobilização política deixou suas marcas. As emoções ganharam um caráter ideológico, sendo um instrumento de pertencimento no cotidiano das pessoas, seja algo virtual ou real. A apologia à repressão foi ganhando contornos mais nítidos, sendo visualizada diariamente em espetáculos políticos.

Já trafegando no ano de 2017, especificamente no primeiro dia da série de 365 vivenciados entre o Impeachment e uma possível nova eleição presidencial, na penumbra noturna das primeiras horas do calendário, o céu ganhava focos luminosos no país da celebração. Um novo ano, velhos rituais.

Naquele instante, em Campinas, no interior paulista, as marcas deixadas pelo processo de deslegitimação da mulher, que ocupava o território do poder masculino, fazia mais um sacrifício. O ódio destilado pelo técnico em laboratório Sidnei Ramis de Araújo, de 46 anos, contra figuras femininas, o fez invadir o ambiente onde estavam sua ex-mulher, seus filhos e os respectivos familiares, assassinando 12 pessoas, em sua maioria, mulheres.

Os caminhos investigativos concluíram que essas mortes estavam vinculadas a motivos que vão muito além de problemas relacionados à parentela. O assassino suicida deixou um vasto material que apontou as veredas que o país já vinha percorrendo. Um percurso que já tinha vitimado publicamente Dilma. Um roteiro de rotinas nos quartos dos quatros cantos desta mãe gentil. Não há dúvidas, estamos diante de mais um caso sexista, com forte conteúdo misógino.

“A justiça brasileira é igual ao Lewandowski (um marginal que limpou a bunda com a Constituição no dia que tirou outra vadia do poder) um lixo”, exclamava em folhas de papel o autor dos crimes. Além disso, a Lei Maria da Penha é nomeada em carta deixada pelo homicida como “Vadia da Penha”, que junto com a Lei do Feminicídio, são tentativas de combate à violência contra as mulheres no Brasil.

Para a promotora do caso, Gabriela Manssur, existe uma relação explícita do “massacre de Campinas” com os ataques sofridos pela então presidenta em seu processo de impedimento, algo que vai muito além de posicionamentos políticos. “A internet é um espaço público e, como todo espaço público, reflete comportamentos e crenças da vida privada. É muito representativo que as cartas dele tragam elementos de discurso de ódio das redes sociais”, destacou a investigadora.

Os xingamentos direcionados a uma chefe de Estado conseguiam ir além da sua figura pública e chegaram ao ser mulher, que naquela situação representava milhões de brasileiras sobreviventes dessas práticas no seu cotidiano.

O sexismo e a misoginia não são apenas disputas ideológicas no campo da política, são, sobretudo, uma questão de preservação da vida. Brasília e Campinas estão bem próximas, apesar da distância geográfica, são sínteses complexas dos diversos “brasis”.

* Trecho do livro “Impeachment e misoginia nas redes sociais”, que será lançado em junho/2018 pela Editora Lúmen Júris.

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