A psicanálise tem um gigantesco desafio pela frente: as brasileiras e os brasileiros “de bem”. Sociólogos, filósofos, linguistas também podem encarar a esfinge.

As “pessoas de bem” compõe um novo estamento, a meritocracia. Gente de fibra, que ingressou em universidade pública, passou em concurso público e ganha teto e sobre teto salarial pagos pelos cofres públicos.

Gente empreendedora, que toma empréstimos subsidiados dos bancos estatais, mas que defende a privatização a toque de caixa e o Estado-mínimo.

Esse pessoal ético e indignado puto da vida com a corrupção, mas pintou e bordou neste último mês de abril para ludibriar o leão do imposto de renda.

Aquela consulta e a cirurgia vendidas “por fora”. Aquela maquiagem nas despesas pessoais com a saúde privada.

Aquele rendimento travestido de dividendos. Aquele “laranja” para esconder o patrimônio ilícito.

Viagens e carrões ostentados nas redes sociais, mas incompatíveis com os rendimentos declarados? – Essa “gente de bem” tem um bom gosto que só vendo.

Pessoal bacana (com o cartão de crédito estourado), que despreza os programas sociais do governo para beneficiar o mais pobres, mas se orgulha do filho que esteve no exterior à custa do Programa Ciência Sem Fronteiras.

Gente “de primeira num país de terceira”, se emociona com a Lata Velha, o Lar Doce Lar e a Árvore dos Desejos, do Caldeirão do Huck. – A miséria dos outros é refresco.

Apoiaram Eduardo Cunha e Aécio Neves na derrubada da presidenta e agora estão exaustos de tanto civismo. – Ou seria cinismo?

Essa “gente de bem”, que não toca o dia antes de ouvir Mirian Leitão e Alexandre Garcia. Discípulos de Olavo de Carvalho.

Gente culta, instruída e bem informada como Alexandre Frota, só aceita reis-filósofos não é mesmo?

A turma “do bem” que tem brios mas também muitos medos. Medo da violência. Medo da inflação. Medo das oscilações na bolsa de valores. Medo da alta do dólar – como ficam aquelas viagens para os Estados Unidos?

Classe média que tem medo da ascensão do povo pobre. Classe média econômica sente medo de ficar mais parecido com o vizinho do andar de baixo. Queria mesmo subir para a cobertura.

“Gente do bem” que tirou o ódio do armário, que liberou o ódio, que deixou se levar pelo ódio.

Agora que o diabo está preso na garrafa, que vais fazer com teu medo, cidadão de bem? Onde enfim enfiarás o teu ódio?

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